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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Katyn, a grande intriga





Katyn, a grande intriga

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A morte recente do presidente da Polônia, Lech Kaczynski, e outras 96 pessoas, num acidente aéreo em 9 de abril, deu aos reacionários de plantão pelo mundo mais um gancho para trazer à tona intrigas e difamações contra a União Soviética e Stalin. Acontece que a comitiva se dirigia a Katyn, localidade próxima de Smolensk, na Rússia, para prestar "homenagens" a supostas vítimas polonesas dos serviços secretos do Exército Vermelho. Imediatamente o monopólio dos meios de comunicação do mundo todo ressuscitou o caso, do qual se falou mais até do que da morte do presidente polonês.


Genocídio nazista é desmascarado. A grande mentira sucumbe aos fatos
O massacre de Katyn ficou assim conhecido através de uma intriga nazista que data de 1943, quando acusaram o Exército Vermelho de ter executado com tiros na nuca a cerca de 10 mil poloneses, principalmente militares. Os nazistas anunciaram uma "investigação" no território ocupado por eles, com a ajuda de um governo títere e de uma Cruz Vermelha coagida e enquadrada, para chegarem a conclusão de que não foram eles, e sim os soviéticos que cometeram tal atrocidade.
Para entender Katyn é necessário entender primeiro o papel desempenhado pela Polônia no panorama europeu e o Pacto de Não-Agressão assinado pela URSS e a Alemanha nazista.
A Alemanha, que saiu destroçada da Primeira Guerra Mundial, foi reerguida e rearmada pelos países imperialistas e tinha propósitos expansionistas, principalmente contra a URSS e o socialismo. No entanto, sabia que consolidar uma posição forte na Europa era fundamental e abrir uma guerra com dois fronts seria suicídio.
A URSS, por outro lado, não tinha dúvidas que um ataque nazista a seu território era questão de tempo e por mais que as contradições interimperialistas estivessem se agravando era ela, a pátria do socialismo, o inimigo jurado de todas as potências imperialistas. Sabia que em caso de agressão nazista deveria contar apenas com suas próprias forças e ter uma estratégia precisa, pois os possíveis aliados esperariam um desgaste das duas partes antes de intervir. Tais suspeitas se confirmaram com a demora da abertura da segunda frente iniciada com o desembarque da Normandia, já no fim da guerra. A URSS Precisava de tempo para se preparar política, econômica e militarmente para o confronto inevitável. Não por acaso a diplomacia revolucionária soviética trabalhou arduamente toda a década de 1930 por um acordo de não-agressão com a Inglaterra, França e inclusive com a Polônia, acordo jamais realizado.
Em 23 de agosto de 1939, o Pacto de Não-Agressão entre a URSS e a Alemanha é assinado e até hoje reacionários e oportunistas de todos os matizes acusam a URSS de ter dado a senha para o início da guerra. O que esquecem de se referir é que teria sido suicídio não se preparar para enfrentar a Alemanha armada até os dentes e que todas as potências imperialistas olharam para o outro lado, tanto no caso da Polônia como da Tchecoslováquia, Bulgária, etc., até que os nazistas desfilaram em Paris. Com o Pacto, a URSS entrou em um esforço monumental em que fábricas foram mudadas de lugar, armas foram aperfeiçoadas e produzidas em massa, estradas abertas e o principal, massas foram preparadas política, ideológica e militarmente para enfrentar o inimigo. O fato é que o Pacto permitiu a preparação e a ordem de resistir até o último homem em Moscou, Leningrado e Stalingrado, sendo essas as duas pedras fundamentais da vitória sobre o nazi-fascismo. Não é de se estranhar que sejam justamente elas que mais queixas e lamúrias levantem da reação.
Neste cenário a Polônia desempenhava papel fundamental: era a única barreira entre a Alemanha e a URSS, Hitler queria ocupá-la prontamente e a necessidade de criar ali a primeira linha de defesa do território soviético também era premente. Ademais, o pacto estabeleceu que a URSS ocuparia apenas o território com maioria da população ucraniana, bielorrussa e russa, que então compunham a união das nações soviéticas.
A guerra se desenvolveu rapidamente e em 1941 parte significativa do território soviético já estava ocupado, incluindo a região de Smolensk, onde se situava Katyn.

Foto da execução de prisioneiros em Katyn
encontrada com soldado nazista ao fim da II Guerra
Em 11 de abril de 1943, autoridades nazistas começam a difundir a patranha de Katyn. Afirmando que haviam descoberto, dois meses antes, covas coletivas com cerca de 10 mil oficiais poloneses assassinados pelos soviéticos, supostamente em 1940. Surpreende o fato de tal "descoberta" bombástica ter sido feita apenas dois meses após a derrota dos nazistas em Stalingrado e o consequente início da contra-ofensiva soviética.

O que ocorreu

em 1919, no fim da 1ª Guerra Mundial, estabeleceu-se a chamada "Linha Curzon", que delimitava a fronteira entre a Polônia e a jovem pátria proletária. Insatisfeitos, os poloneses se aproveitaram da fragilidade militar dos revolucionários russos e avançaram a oeste da linha, tomando grande extensão do território russo.
Em 17 de janeiro de 1939 a URSS ocupou o território a oeste da Linha Curzon e imediatamente iniciou a distribuição de terras aos camponeses, implementando também outras medidas populares e democráticas. Durante a batalha para retomar estes territórios, 10 mil oficiais e soldados poloneses foram feitos prisioneiros de guerra, sendo utilizados na construção de estradas, etc.
Durante a invasão nazista à URSS em 1941, a Ucrânia foi ocupada muito rapidamente e não houve tempo para a evacuação de todos os prisioneiros, razão pela qual os poloneses se converteram em prisioneiros de guerra alemães.
Eis que em abril de 1943 os alemães anunciam a descoberta das fossas com as vítimas do massacre, atribuindo as mortes aos soviéticos num momento crucial da ofensiva do Exército Vermelho. Não é difícil imaginar o que houve com os prisioneiros poloneses, mas mesmo assim ainda há testemunhos que confirmam a morte dos poloneses pelas mãos dos carrascos hitlerianos.
Maria Alexandrovna Sashneva, professora de uma escola primária local, declarou a uma comissão especial organizada pela União Soviética em setembro de 1943, imediatamente depois de o território ser libertado dos alemães, que em agosto de 1941, dois meses depois da retirada soviética, o que lhe disse um prisioneiro polonês fugitivo. Seu nome era Juseph Lock e relatou dos maus tratos sofridos sob a ocupação alemã:
"Quando os alemães chegaram, se apoderaram do campo de prisioneiros poloneses e estabeleceram um regime estrito. Os alemães não consideravam os poloneses como seres humanos. Os oprimiram e humilharam de todas as maneiras possíveis. Disparavam nos poloneses sem motivo algum. Ele decidiu fugir..."
Outros relatos revelam as pressões sofridas pelas "testemunhas" do massacre.
Parfem Gavrilovich Kisselev, habitante da região de Katyn, foi preso torturado e obrigado a assinar um documento onde dizia ter testemunhado a execução dos poloneses pelos soviéticos. Quando pensava que o pesadelo havia acabado, foi novamente obrigado a testemunhar perante uma comissão polonesa, mas não confirmou a versão nazista e de novo foi preso e surrado, até que repetisse a história ditada pelos carrascos alemães. Muitos confirmaram o depoimento de Kisselev e um exame confirmou as torturas a que foi submetido.
Outros testemunhos dão conta de que seria impossível, no estado que se encontravam os corpos, que os mesmos estivessem enterrados por três anos, como diziam os nazistas. Os cadáveres não estavam decompostos, como seria de se esperar de uma vala comum, mas com partes bastante íntegras e mantinham os membros quando eram puxados para a superfície sem nenhum cuidado.
Por fim, até o próprio Goebbels em mais de uma oportunidade deixaria registrado que tudo não passava de propaganda contra a URSS. Em seu diário, ele escreveu em 18 de maio de 1943: "desgraçadamente a munição alemã foi encontrada em Katyn. É fundamental que este incidente se mantenha em segredo. Se for conhecido pelo inimigo todo o assunto de Katyn terá que ser abandonado."

A correspondência secreta

A campanha difamatória sincronizou a imprensa nazista e a imprensa polonesa colaboracionista e é bastante esclarecedor acompanhar a correspondência entre Stalin e Churchill1 neste período.
Em 21 de abril Stalin escreveu "... A campanha de difamação contra a União Soviética, iniciada pelos fascistas alemães, a respeito do extermínio, por eles, dos oficiais poloneses na zona de Smolensk, em território ocupado pelas tropas alemãs, foi imediatamente acolhida pelo governo do Sr. Sikorski e alçada por todos os meios pela imprensa oficial polonesa. O governo do Sr. Sikorski, não só não fez nada frente a essa calúnia fascista contra a URSS, como nem sequer achou necessário dirigir-se ao governo soviético para pedir explicações ..."
Stalin comenta então que os dois governos, nazista e polonês, chamaram a Cruz Vermelha para participar da investigação, que se viu obrigada a fazê-la em um regime de terror. Comenta ainda que a forma sincronizada como tal campanha foi iniciada indicava a existência de acordo entre os dois governos.
Finaliza a carta afirmando que o governo soviético concluiu pela necessidade de romper relações diplomáticas com o governo polonês no exílio.

Cena do filme Katyn, do polonês Andzej Wajda, que tenta reacender a intriga nazista
No dia 23 Churchill responde "... Nos oporemos energicamente, está claro, a uma ‘investigação' da Cruz Vermelha Internacional ou de qualquer outro organismo em território dominado pelos alemães. Uma investigação deste gênero seria uma enganação e seu veredito seria obtido por intimidação. Mr. Eden se reunirá hoje com o Sr. Sikorski para pedir-lhe que renuncie a dar apoio moral a uma investigação feita sobre a proteção dos nazistas. ..."
Churchill passa então a falar da "posição difícil" de Sikorski, que se ele fosse substituído poderia ser pior, e a tentar convencer Stalin a não romper relações. Sem dúvida, manter relações com governos reacionários era importante para Churchill e a difamação da URSS em nada lhe atingia, ao contrário. Mas para a URSS, manter relações com o governo reacionário polonês era, no mínimo, admitir a possibilidade de culpa. Assim sendo, em 25 de abril Stalin, em um curto bilhete, agradece o envolvimento de Churchill, mas afirma que já havia tomado as providências para o rompimento.
Nas cartas seguintes, datadas de 25 e 30 de abril, Churchill demostra seu caráter dúbio. Afirma que existiam diferenças entre as posições polonesas e nazistas, que os poloneses haviam inquirido os soviéticos sobre o assunto e que após enérgica intervenção britânica Sikorski havia se comprometido em não insistir em que a Cruz Vermelha fizesse a investigação. Logicamente tais iniciativas eram apenas de fachada, uma vez que o estrago já estava feito e os nazistas não parariam por causa dos protestos do governo títere da Polônia.
Churchill repassa uma petição do governo polonês para que seja autorizada a saída de poloneses em território russo e iraniano para sua incorporação no exército.
Insiste ainda no problema do rompimento de relações estre a URSS e a Polônia e se compromete a "chamar à ordem e à disciplina" "a imprensa polonesa em Londres, que obviamente também participava da campanha difamatória". Afirma ainda que "... Até agora tem sido uma vitória de Goebbels. Este se inclina atualmente com o maior zelo à idéia de que a URSS organizará um governo polonês em território russo e só negociará com ele. Nós, naturalmente, não poderíamos reconhecê-lo e seguiríamos mantendo relações com Sikorski ..."
Stalin responde em 4 de maio afirmando que até a data da carta a campanha difamatória não havia encontrado resistência em Londres, que julgava desnecessário desmentir a articulação de um governo polonês em território russo e que o governo soviético nunca havia imposto obstáculos à saída de soldados poloneses da URSS.
O fato é que ao desfraldar a patranha de Katyn, Hitler prestava um grande serviço a seus colegas imperialistas. Tentava vender a imagem de que os comunistas eram tão ruins como os nazistas. De fato, após a aniquilação do nazismo pelo Exército Vermelho, Katyn vem sendo usada para difamar o socialismo e tentar diminuir a importância da URSS na guerra.
Não por acaso, em 2009 estreou o filme Katyn, do polonês Andrzej Wajda, requentando a intriga nazista. Porém, apesar de filmes sobre a Segunda Guerra terem rendido muita bilheteria para Hollywood, quer enaltecendo a invasão da Normandia, quer tentando "queimar o filme" da URSS, o papel destacado do povo dos sovietes liderados pelo Marechal Stalin é indelével. Seguirá sempre nas mentes e nos corações dos povos como a lição de bravura e desprendimento de um povo para derrotar a besta mais reacionária que já surgiu.
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1 Primeiro-ministro britânico.

Guilherme Boulos /Os três pactos desmontados pelo golpe

Crise Política

Os três pactos desmontados pelo golpe

por Guilherme Boulos — publicado 24/07/2017 00h30, última modificação 21/07/2017 15h56
Governo avança no propósito de destruir os legados de Lula, Vargas e da Constituição
Ricardo Stuckert e IstockPhoto
Coluna Boulos
De uma tacada, Vargas, Ulysses e Lula desconstruídos
Em pouco mais de um ano de governo Temer, o impacto de suas políticas é devastador. Sem respaldo no voto popular e despreocupado com a opinião pública, o governo fez da agenda do mercado sua própria agenda, sem freios ou contrapesos institucionais. Colocou em marcha um programa de rapinagem financeira totalmente incompatível com a escolha das maiorias. Não por acaso chegou ao poder por um golpe.

A contradição entre mercados e democracia não é uma jabuticaba brasileira. Ao contrário, como resposta à crise mundial, os capitais buscam estabelecer por toda a parte um regime selvagem de acumulação, em que os direitos sociais são obstáculos e a soberania do voto popular só vale se não contrariar seus interesses. Que o digam os gregos e seu plebiscito, atropelado pelas imposições do Banco Central Europeu.

Só isso explica como um presidente com 3% de aprovação social segue  a governar e a aplicar sua agenda. É o mesmo poder que permitiu a Henrique Meirelles dizer que fica no comando da economia independentemente de quem esteja na Presidência. 

Com a rapidez própria aos salteadores, o governo Temer iniciou em um ano o desmonte dos três pactos nacionais firmados no último século. Pactos que consolidaram avanços sociais e estabeleceram marcos progressistas, ainda que, pela tradição das transições brasileiras, tenham sido gestados por cima, sem grandes rupturas e, por vezes, exatamente com a preocupação de evitá-las. Mas, como disse Freud a respeito da consciência, “não é grande coisa, mas é o que temos”. Ou tínhamos.

O primeiro pacto a ser atacado foi o mais recente deles, o lulista. Ao assumir o governo em 2003, Lula desenvolveu uma estratégia de concertação social e política pela qual garantiu avanços às classes populares sem mexer com os grandes interesses da casa-grande. Ao mesmo tempo que manteve intactas as estruturas de privilégio, o sistema político e as oligarquias das comunicações, garantiu uma política de valorização continuada do salário mínimo e programas sociais que comprometeram parte do fundo público com políticas de redução da pobreza.

Conhecido como “ganha-ganha”, o projeto capitaneado por Lula foi atacado duramente pelo golpismo. Os homens das finanças não queriam mais saber de ganha-ganha, agora era o momento do ganha-perde. A conciliação deveria dar lugar à espoliação. Assim, sepultaram a política de valorização salarial e os programas sociais foram duramente arrochados, quando não simplesmente extintos, como no caso do Farmácia Popular e do Ciências sem Fronteiras

O passo seguinte foi voltar as baterias contra o pacto constitucional de 1988. No processo de declínio da ditadura, a Constituição assegurou uma rede de proteção social, com a garantia de serviços públicos universais. Estabeleceu um modelo de seguridade social, composto da Previdência e do SUS, e definiu a educação pública e gratuita como direito de todos. Com os limites próprios de uma transição por cima, hegemonizada pelo Centrão de Ulysses Guimarães, mas também produto da mobilização dos movimentos sociais, a Constituinte institucionalizou importantes avanços. 

Temer e sua turma foram direto ao coração, abalado, desses avanços: as fontes de financiamento. Com o bordão falacioso de que “a Constituição não cabe no Orçamento”, embalaram a PEC 55, que determinou o congelamento dos investimentos sociais do Estado pelos próximos 20 anos. Na prática, se esse regime fiscal for mesmo implementado, significará o fim dos serviços públicos universais e de qualquer programa social. É tornar o Estado nulo econômica e socialmente, uma verdadeira desconstituinte. Não por acaso, foi aprovada debaixo de uma chuva de bombas em frente ao Congresso Nacional, em Brasília.

Agora, a vítima foi o mais antigo dos pactos sociais brasileiros do último século, o varguista. A reforma trabalhista deixou em ruínas a CLT, que havia assegurado por quase 80 anos a regulamentação das relações de trabalho no País. Nem a ditadura militar, em duas décadas, colocou suas garras na legislação trabalhista. Em um ano de Temer, ela se foi. A terceirização irrestrita, o trabalho intermitente e a sobreposição das negociações à proteção legal escancararam as portas para o capital impor-se sem limites ao trabalhador.

Ademais, limitaram o poder de recurso à Justiça do Trabalho, ao estabelecer taxas de perícia e uma série de entraves burocráticos para as ações de reparação pelos trabalhadores. Foi-se, com a reforma, a última vara que impedia a boca do jacaré de se fechar.

É preciso reconhecer que a resistência popular ficou aquém do necessário para barrar essa agenda de destruição nacional. Não houve, é claro, a paz dos cemitérios. As ruas reagiram e conseguiram adiar por algumas vezes a reforma trabalhista e evitar até aqui a da Previdência. As mobilizações de março, a grande greve geral de 28 de abril e a ocupação de Brasília em maio, que o governo respondeu com o chamado às Forças Armadas, representaram uma escalada da luta social em defesa dos direitos.

A conduta de Temer e do Congresso em responder  à mobilização popular pisando no acelerador em sentido contrário gerou, porém, um misto de apatia e revolta. Apatia pela descrença de que as manifestações e greves pudessem reverter o quadro. Revolta pelo aumento do abismo entre o grito das maiorias e as votações parlamentares.

A apatia, somada ao recuo de algumas centrais sindicais, fez com que a greve convocada para 30 de junho não conseguisse repetir o sucesso de abril. A revolta acumula-se e cimenta caminhos de uma legítima desobediência civil. Ela tem seus tempos, que nem sempre correspondem à urgência das pautas. Mas a história nos mostra que, quando os canais de representação democrática se esvaziam e perdem eficácia, prepara-se o terreno para fortes embates.

É preciso insistir nas ruas. Não há espaço para um projeto nacional verdadeiramente democrático sem reverter esses retrocessos. E eles não serão revertidos sem ampla mobilização popular. Esperar sentado por 2018, além de temerário, é ignorar o que ainda pode vir em termos de regressão social. O grito das ruas não ecoou ainda do jeito que gostaríamos, mas, novamente citando o dito de Freud, é tudo o que temos.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

“Exército vai às escolas”,críticas


Professora critica projeto “Exército vai às escolas”: “faria sentido em uma ditadura”

A professora Carmen Craidy, integrante do Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul e docente aposentada da Faculdade de Educação da UFRGS, criticou nesta quarta-feira (19) o projeto “Exército vai às escolas”, anunciado pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc) com o objetivo de “levar atividades das Forças Armadas para estudantes de ensino médio da rede estadual”. “É algo muito sério e grave. É uma forma inclusive de desqualificar os professores, porque dar formação cívica é responsabilidade dos professores. A função do Exército é outra, é garantir a segurança das nossas fronteiras contra ameaças externas, assegurar a segurança do país. Eles não são educadores”, afirmou a professora.
A utilização de equipamentos do Exército para práticas esportivas ainda passa, acrescentou Carmen Craidy, mas dar formação cívica não é função do Exército. “Esse projeto envolve uma distorção das funções do exército e uma desqualificação dos professores, trazendo o risco de implantar uma visão militar de civismo. Nós precisamos de uma visão civil de civismo”.
A professora chamou a atenção para o fato deste projeto ser apresentado no momento em que unidades de assistência social (CREAS e CRAS) estão sendo desativadas em Porto Alegre. Essas unidades, assinala, são responsáveis, entre outras coisas, por dar encaminhamento a meninos em conflito com a lei e meninos com medidas socioeducativas. “Me parece que essa proposta corresponde a uma visão militar de Estado ou a uma visão policial de Estado”, alertou.
Ainda na avaliação da professora, esse projeto faria sentido dentro de uma ditadura militar, “não numa pretensa democracia que vivemos hoje, que de democracia não tem muita coisa”. “É um projeto inadequado em todos os sentidos. Militarizar as escolas é o fim do mundo, é terminar de acabar com uma visão democrática de educação. Não vejo nada que possa justificar tal proposta”, concluiu.
O projeto “Exército vai às escolas”
O Departamento Pedagógico da Seduc reuniu-se, dia 12 de julho, com o Comando Militar do Sul para debater o termo de cooperação para a elaboração do projeto “O Exército nas Escolas”, que pretende levar atividades das Forças Armadas para estudantes de ensino médio. A proposta prevê palestras, prática de esportes, visitação a bases militares e “aulas de civismo e formação de cidadania”.
Segundo Vitor Powaczruk, assessor pedagógico do Ensino Médio da Seduc, o plano é que o projeto comece de forma experimental a partir do segundo semestre deste ano em pelo menos cinco escolas da 1° Coordenadoria Regional de Educação, de Porto Alegre. A meta é ampliar o projeto para as demais regiões do Estado, em 2018. O coronel Ary de Albuquerque Gusmão Filho, analista do Núcleo de Estudos Estratégicos do Comando Militar do Sul, defendeu o projeto destacando “o papel social das Forças Armadas dentro de uma estratégia de Defesa”. O objetivo do projeto, resumiu, é “proporcionar aos alunos um pouco dos valores de paz e civismo, dentro de um aprendizado de direitos e deveres da cidadania”.
Marco Weissheimer, via Sul 21
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